BORA ALMOÇAR?
O RH pode até discordar, mas o verdadeiro onboarding acontece no almoço.
Talvez nada me ofenda mais no ambiente de trabalho do que quando chega um novato e ninguém o convida para almoçar com a galerinha da firma. Especialmente se esse “novato” for eu.
Deve fazer pelo menos três anos que trabalho 100% remoto, mas, do nada, essa lembrança me veio à cabeça. E o mais curioso é que ela continua me incomodando exatamente do mesmo jeito.
Vale dizer que eu não dou a mínima se, no dia do meu aniversário, você vai sair da sua baia para dar aquele abraço protocolar de colega de trabalho, acompanhado de um “parabéns”. O que eu não perdoo é ver um comboio saindo para o restaurante por quilo mais próximo e ninguém lembrar de perguntar: “Você vem?”. Isso, para mim, é o verdadeiro ápice da falta de respeito no ambiente corporativo.
A sensação de quem fica para trás é horrível, principalmente naqueles primeiros dias de trabalho, quando o TI ainda está configurando seus milhares de acessos e você passa a maior parte do tempo de bobeira pela empresa ou em reuniões de apresentação. Isso ainda existe, né?
Num passado nem tão distante, sempre que eu percebia a chegada de alguém novo, antes de sair para almoçar, eu procurava ver se alguém tinha ficado para trás. Não faço isso para mostrar que sou benevolente ou caridoso. Já fiz isso com pessoas de todos os cargos, de estagiários a C-levels, e com gente de todos os lados, de clientes a fornecedores. O que me pega é que só o fato de fazer parte de um grupo que exclui alguém, mesmo sem intenção, já me causa uma sensação profundamente incômoda.
Nesses muitos anos trabalhando em agências, já vivi de tudo. Uma dessas experiências foi sentar ao lado de um cara por mais de seis meses e, em nenhum momento, receber um simples “bom dia”. Isso me deixava curioso para entender o porquê. Minha cabeça criava várias teorias. Será que a minha chegada bloqueou a promoção dessa pessoa? Será que eu falo “bom dia” baixo demais? Será que a minha presença, especificamente, desperta nela algum tipo de fobia social?
Existe uma casta muito específica de criativas e criativos ambiciosos que, em certa medida, são os seres mais estranhos que você pode conhecer. Em grande parte do tempo, amam ou tratam o próximo de forma extremamente seletiva.
Não consigo dizer por que, desde sempre, eu me aproximava do grupo dos excluídos quase de forma magnética, como se alguma coisa me puxasse para essa galera que está jogada em algum canto. O que, politicamente, no universo corporativo, acaba sendo pouco atrativo. E, se por acaso eu perceber que você se aproximou de mim para dizer que eu não deveria sair para almoçar com os estagiários da mídia, pode ter certeza de que vou dobrar a aposta. Fui criado à base de reprises dos filmes do John Hughes e não estou nem aí para sentar na mesa do time de futebol americano da escola. Pode ficar com essa jaqueta brega para você.
Então fica a dica. Por mais complexo que seja a vida, ou o projeto em que você está trabalhando, convide a pessoa que acabou de chegar para almoçar. Mesmo que a pessoa recuse, pergunta de novo outro dia.
No pior dos casos, você ganhou companhia para reclamar da fila ou do preço do quilo.
E, se nada disso te convencer, faz pelo menos por mim. Tenho um trauma perfeitamente evitável com gente que sai em comboio para almoçar e esquece dessas três palavrinhas tão saudáveis no ambiente corporativo: “Você vem?”.
LIVRO
Um convite para almoçar parece um detalhe insignificante. Até deixar de acontecer. Foi justamente uma dessas pequenas situações do cotidiano que deu origem ao texto desta semana.
Esse tipo de observação sempre me lembra Raciocínio Criativo na Publicidade, um dos primeiros livros sobre a profissão que li. Apesar de retratar uma outra época da publicidade, ele é cheio de causos divertidos e situações que continuam surpreendentemente atuais. Se você gosta desse tipo de história, acho que vai curtir a leitura. E, se decidir comprar, pode usar o meu link da Amazon para dar uma força.







